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Pirataria chega ao segmento de implantes

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Pirataria chega ao segmento de implantes

Ao contrário do pensamento de muitos, a Implantodontia não começou em 1950, mas há milhares de anos. Egípcios e maias tentavam substituir os dentes por ouro e conchas. Em 1950, pesquisas em coelhos com outros fins demonstraram acidentalmente a possibilidade de osteointegração. “Foi a partir daí, que pesquisas sistemáticas sobre técnicas de fundição e estudos biológicos foram iniciadas, a fim de viabilizar uma prótese por meio de um material biocompatível que, associado ao advento dos antibióticos, possibilitaram sua implantação com menores chances de infecções pós-operatórias, sendo um sucesso, estimulando, assim, a classe odontológica a reproduzir as mais diversas técnicas de Implantodontia”, explica o cirurgião-dentista especialista em Implantodontia, Norberto Rubem Gonsales Junior*.

Dados históricos apontam que em 1965, o Dr. P-I Brånemark desenvolveu e instalou, pela primeira vez, um sistema de implantes osteointegrado, com a fixação da prótese através de parafusos. Quatro implantes foram instalados em seu primeiro paciente, que possuía deformidades congênitas na mandíbula e queixo, anadontias e dentes desalinhados. Após seis meses, este paciente foi, então, reabilitado. Este é o caso mais bem documentado até então, com acompanhamento por um período de 40 anos.

Porém, segundo o cirurgião-dentista Norberto, até o início da década de 1980, as técnicas utilizavam materiais como o aço cirúrgico, e não tinham a intenção de promover a osseointegração. Os implantes eram instalados sob a mucosa ou então eram intraósseos, mas baseados na retenção mecânica indicada pela técnica. Assim, com o passar dos anos e a utilização dos implantes na mastigação, processos inflamatórios naturalmente surgiram, e alguns implantes se perderam. “Foi somente após o Protocolo de Toronto, no início da década de 1980, que tivemos conhecimento sobre a instalação dos implantes dentários tal como os conhecemos hoje: realizados em titânio comercialmente puro e instalados por profissionais capacitados, atingindo um índice de sucesso acima de 90%”.

Até hoje, esses trabalhos recebem o nome de protocolo. As próteses podem ser entregues em poucos dias e o índice de sucesso chega a quase 100%. Foram esses resultados que impulsionaram o sucesso da Implantodontia Moderna.

A Implantodontia no Brasil
No Brasil, a técnica passou a ser utilizada em meados da década de 1980, com as primeiras cirurgias dos implantes osseointegrados.

Os primeiros brasileiros se deslocaram até a Suécia e EUA para aprenderem as técnicas em Implantodontia, que já se mostravam uma alternativa confiável ao que se fazia até então.

Estes pioneiros, de volta ao Brasil, iniciaram o treinamento e aperfeiçoamento científico dos colegas, assim como dos técnicos em prótese.

Norberto lembra que, nesta época, poucos profissionais dominavam a Implantodontia e poucas marcas importadas estavam disponíveis no mercado brasileiro, de custo bastante levado, causando uma elitização da especialidade. “Alguns pioneiros começaram a desenvolver uma indústria de implantes e componentes em nosso país, de início, de baixa qualidade e tecnologia. Com a queda de patentes internacionais e a estabilidade econômica que tivemos nas últimas duas décadas, houve um significativo ganho na capacidade da indústria brasileira em incorporar e desenvolver tecnologia e métodos de produção. Hoje, nossos implantes são referência internacional, exportados para vários países de primeiro mundo”, comemora.

Em 2014 foram realizados, no Brasil, 2 milhões e 200 mil implantes, número inferior apenas aos dos Estados Unidos. Essa trajetória de sucesso pode ser direcionada ao enriquecimento da técnica no segmento.

Hoje é possível afirmar, de maneira enfática, que a Implantodontia é ferramenta indispensável para a qualidade de vida da população.

Norberto, que também é membro honorário do Colégio de Implantologia Oral da Bolívia, esclarece que essa ascensão da especialidade se dá devido ao fato de a prática ter alcançado parte considerável da população brasileira. “Uma terapia que em seus primórdios estava apenas ao alcance de uma elite, hoje, está disponível para boa parte da população, com o crescimento de uma grande oferta de produtos de boa qualidade e profissionais aptos a executá-la”.

Questão de originalidade
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (ABIMO), três em cada 10 implantes dentários feitos no Brasil são piratas. A afirmação tem preocupado profissionais de Odontologia de todo país, considerando que a Implantodontia é uma das áreas que mais cresce.

Norberto afirma que, em sua maioria, a classe está preocupada com o crescimento das vendas deste produto no mercado. “Profissionais sérios, com conhecimento suficiente para avaliar as implicações sabem que o sucesso dos implantes tem relação direta com a qualidade do material utilizado, e apoiam iniciativas no sentido de coibir a venda e uso de materiais de procedência duvidosa. Por outro lado, se as vendas crescem, isso se deve a conduta de profissionais inescrupulosos ou mal informados que desconhecem ou desconsideram as consequências do uso de implantes e, principalmente componentes piratas”, argumenta o especialista.

A categoria espera a aprovação de um projeto de lei, no Estado de São Paulo, que obrigará a venda de produtos odontológicos com a devida identificação. Exemplo a ser seguido em nível federal.

Enquanto tal lei, indispensável para o perfeito desempenho da especialidade, não entra em vigor, cabe aos profissionais habilitados, a função de avaliar a originalidade do material utilizado.

“Mesmo entre os dentistas, é difícil saber se o problema na prótese de um paciente é provocado por componente pirata. O uso de componentes falsificados leva a complicações na prótese e só a partir deste momento, conseguimos perceber a falsificação na indústria legalizada. Para cada implante, deve haver um componente. Mas, atualmente, de cada 10 implantes vendidos, apenas sete componentes são comercializados. Então, é importante checar o fornecedor do produto, o número de registro na ANVISA, e sempre confirmar a veracidade dessas informações no site da agência”, alerta Norberto.

Outra observação muito importante para tentar reverter esse quadro, é o bom relacionamento com o protético, que normalmente é o responsável pela compra dos componentes.

Norberto enfatiza que o elo dentista/protético deve ser pautado na confiança, mas o dentista não deve atribuir sua função a outro profissional, exceto por falta de conhecimento científico ou técnico.

“Quero dizer que, quando a condução de um tratamento é superficial, sem critérios de planejamento, e sua execução equivocada, o técnico em próteses ‘conserta’ na prótese o que o implante diverge na boca. Nem sempre o técnico em prótese mantém um critério de uso de componentes protéticos do mesmo fabricante do implante usado pelo dentista, e apela para os ‘genéricos’. Sabemos que há empresas especializadas em manufaturar produtos cambiáveis com diversas marcas comerciais de implante, e que são até certificadas, contudo, existe sim, a necessidade de recomendar o uso de implante/ componente de mesma origem”.

A calibragem de torno, procedência de matéria prima, controle de qualidade e garantia do produto podem fazer a diferença na eventualidade de uma prótese apresentar problema, e necessitar de análise. Ademais, o dentista que providencia seu próprio componente está convicto do tipo de prótese que quer realizar, isto é, confia no seu planejamento.

“A qualidade de um produto na Implantodontia está muito avançada. A pesquisa científica que embargou a cadeia de produção dos implantes, componentes protéticos, transferentes de moldagem, cicatrizadores, parafusos de retenção, e mesmo das fresas e chaves de instalação, é concebida de modo a garantir um padrão de qualidade passível de certificação dos órgãos reguladores, além de poderem ser absorvidos internacionalmente via de exportação de tecnologia”, elucida o cirurgião-dentista.

A ABIMO, em fevereiro de 2015, alertou que 30% dos procedimentos realizados no ano de 2014 contaram com o uso de componentes protéticos sem a devida certificação, que testa a qualidade dos produtos antes permitir a comercialização.

É preciso ressaltar que o implante/componente protético pirata pode ser comprado até pela Internet, em sites sem direcionamento a produtos odontológicos, mas configura importação ilegal, pois além de não atender às exigências da ANVISA, gera concorrência desleal pelo subfaturamento do produto. Sendo assim, crime contra a saúde pública e contra a receita federal.

O cirurgião-dentista explica, novamente, que a compatibilidade de produtos entre fabricantes de implante e de componentes protéticos independentes não é garantida. “Próteses mal adaptadas podem gerar danos locais, causando deterioração e perda do complexo implante-prótese/osso. Essa situação local propicia um desenvolvimento bacteriano exacerbado e pontual, que como se sabe, potencializa o problema em si; e que pode, sim, por via hematogênica, propagar-se pelo organismo, debelando enfermidades istêmicas, como a famosa endocardite bacteriana, frequentemente associada ao problema periodontal”.

Dados clínicos comprovam que a perda do implante, como a perda dentária, pode gerar distúrbios locais de oclusão, evoluir para transtornos de ATM e sobrecarga do complexo gnatológico. “E, é nessa linha que podemos enumerar mastigação deficiente, deglutição atípica, fonética desequilibrada, transtornos de musculatura cervico-buco-cranial e, ainda, transtornos gástricos por má mastigação, transtornos de ouvido médio – por acometimento do complexo temporomandibular -, entre outras enfermidades”, evidencia o especialista em Implantodontia. E completa, de maneira clara e bem objetiva, que, “esta ‘economia’ em insumos odontológicos, põe em descrédito a especialidade e a reputação do cirurgião-dentista, determina a queda da qualidade de vida de nosso paciente e frustra a opinião pública quanto a nossa capacidade e competência profissional”.

Unidos contra a pirataria
Diante deste repugnante panorama, autoridades e classe odontológica devem se unir para, juntas, lutarem contra a prática da pirataria, não só na Implantodontia, mas em todos os segmentos da Odontologia.

Norberto acredita que para reverter este quadro, a formação profissional deve ser o primeiro ponto a ser considerado. “O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), por exemplo, defende a realização de um exame de proficiência, assim como acontece com os advogados, filtrando o ingresso de profissionais mal preparados no mercado”. “No Brasil temos 20% dos dentistas do mundo, são 230.000 profissionais. Acredito que boa parte destes, mal preparados, disputa um mercado saturado e de baixo poder aquisitivo”, acrescenta.

Ainda de acordo com o cirurgião-dentista, outro ponto que não deve ser esquecido é a intensificação das ações dos órgãos de vigilância sanitárias em consultórios e laboratórios, verificando a procedência dos insumos utilizados. “Um profissional bem preparado, com conhecimento das implicações no uso de materiais inadequados, fará a seleção do que usar, sempre baseado em critérios técnico-científicos e éticos”.

Implantodontia como ferramenta da saúde bucal e integral da população brasileira
A dentição é fundamental para a manutenção do estado geral dos indivíduos. No aspecto físico, é possível dizer que o meio de subsistir é o alimento, que precisa ser devidamente processado na boca para percorrer o trajeto gastrointestinal. Os dentes promovem uma primeira digestão. “Pensando desta maneira, o edentulismo teve seu fim marcado pela Implantodontia, e, como consequência, o concurso para bons hábitos alimentares”, expõe o profissional de saúde bucal.

Norberto defende que o aspecto psicológico é importante, afinal, devolver a dentição traz novo ânimo ao paciente. Esta reintegração social pode ser encarada até pelo aspecto trabalhista, já que desperta a condição de requalificação profissional.

“Os idosos brasileiros apresentam condições de saúde bucal insatisfatória, e as próteses sobre implantes foram relatadas, segundo a literatura, como possíveis promotoras de melhora significativa na qualidade de vida, com o crescente percentual de idosos na população, o que deve ser visto com atenção pelo poder público, no sentido de se estabelecer uma política que contemple esta parcela da população”, defende o especialista.

Recentemente, o Programa Brasil Sorridente, do Governo Federal, autorizou o financiamento de reabilitação por meio de implantes osteointegrados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em seus Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs). “Ainda é uma iniciativa tímida, devido aos custos envolvidos e a pouca disponibilidade de profissionais qualificados em seus quadros. Poucos CEOs oferecem o serviço atualmente, mas espera-se um crescimento na oferta, em virtude dos resultados positivos obtidos em receptividade e do ganho de qualidade de vida da população, principalmente em idosos”, comemora Norberto, que acredita que a nossa Odontologia é um exemplo para o mundo. “Temos os melhores profissionais do globo, uma oferta destes profissionais que poucos países possuem, disponibilidade de tecnologia e produtos de ponta e, talvez, pela enorme concorrência, valores acessíveis a maioria das pessoas”, finaliza.

fonte: Odontomagazine, escrita por Vanessa Navarro
imagem retirada de http://odontomagazine.com.br/2015-06-pirataria-chega-ao-segmento-de-implantes-19567