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Os distúrbios alimentares e a saúde da boca

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Os distúrbios alimentares e a saúde da boca

Segundo estudos, geralmente, as primeiras manifestações clínicas de distúrbio alimentar aparecem na boca. A especialista em Odontopediatria e vice-coordenadora do Grupo de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo, Dra. Lúcia Coutinho, expõe que os transtornos alimentares podem provocar alterações bucais, como aumento de cárie, erosão dental, projeção das restaurações (“ilhas” de amálgama), bruxismo, hipersensibilidade dentária, mucosites, queilites, gengivites. “Apesar de alguns deles serem problemas odontológicos comuns, que, geralmente, requerem tratamentos simples, o profissional deve estar atento para o que pode estar por trás deles, abordando o paciente e sua saúde de forma integral e sistêmica”, esclarece.
Dra. Lúcia elucida que, dentre os sintomas mais facilmente detectados nos portadores de transtornos alimentares, estão as manifestações bucais. Os portadores de distúrbios alimentares tendem a esconder a doença de amigos e familiares, e estes sintomas são evidentes para o cirurgião-dentista. “O dentista tem a possibilidade de identificar estas alterações em um simples exame clínico rotineiro, o que dá ao profissional de Odontologia um papel importante no diagnóstico clínico da doença”.
Complementando as informações cedidas pela especialista, a Dra. Liliana Takaoka, coordenadora do Grupo Atenção Transdisciplinar Materno Infantil – ATRAMI, explica que, no caso da comprovação da bulimia, existe uma variedade de opções de tratamento para cada bulímico. “O dentista trabalha com profissionais de saúde mental para conceber uma fusão de tratamentos que se ajustem a todos os seus comportamentos e preocupações. Os tratamentos comuns para a bulimia incluem a terapia e o aconselhamento - individual e familiar - realizados por psiquiatras e/ou psicólogos e o aconselhamento e planejamento nutricional feito por nutrólogos e/ou nutricionistas. Raramente, é utilizada medicação como tratamento para a bulimia, a não ser que seja receitada para tratar condições que lhe estejam associadas, tais como a depressão”.
É preciso frisar que o cirurgião-dentista é, muitas vezes, o primeiro profissional de saúde a detectar a presença de possíveis distúrbios, e tem um papel fundamental no diagnóstico precoce desses transtornos alimentares, na prevenção e promoção de saúde bucal em tais pacientes.
A Dra. Liliana lembra que o portador de transtornos alimentares tende a descuidar da higiene oral, o que leva a um aumento na ocorrência de cáries, causado pela maior ingestão de carboidratos pelos pacientes, que nos momentos de compulsão ingerem grande quantidade de alimento cariogênico, e pela diminuição do pH salivar, devido ao vômito.
Segundo a especialista, que também atua como vice-presidente da ONG Viver e Sorrir: Grupo de Apoio ao Prematuro, a ingestão compulsiva de alimentos seguida de indução ao vômito, geralmente, desenvolve erosão dental, principalmente nas faces palatinas dos dentes anteriores, provocada pelo consumo de substâncias ácidas e pela regurgitação do suco gástrico. Tal fato elevaria a taxa de erosão em 31 vezes a mais que nos indivíduos normais. Nestes pacientes também podem ocorrer ‘ilhas’ de amálgama, produzidas pela deterioração do esmalte adjacente à restauração.
“Os medicamentos antidepressivos também podem contribuir para esse aumento de doenças bucais, pois, provocam xerostomia. Essa diminuição da saliva pode dificultar a emulsificação do bolo alimentar durante a fase oral da deglutição e um aumento dramático de cáries dentárias, já que o efeito de proteção da saliva não está presente”, informa Dra. Liliana.
Cabe ainda lembrar que, a acidez do conteúdo gástrico regurgitado ocasiona hipersensibilidade dentinária, piorada pela escovação vigorosa, em seguida aos episódios de regurgitação; mucosites, também associadas ao trauma causado pela rápida ingestão de comida e pelo ato do vômito, e queilite. Esta última é favorecida pela má nutrição e deficiências vitamínicas, que provocam a diminuição no fluxo salivar, gengivite e outras alterações na gengiva e no periodonto.

Vínculo e qualidade de vida
O profissional de saúde bucal, além de toda técnica necessária, ainda precisa ter certo ‘tato’ no momento de abordar a pessoa que sofre com transtornos alimentares.
A Odontopediatra Dra. Lúcia Coutinho, coordenadora do livro ‘Odontopediatria para o Pediatra’, explica que é de fundamental importância que o dentista possua conhecimentos sobre esses transtornos, e que esse profissional esteja preparado para orientar e realizar acompanhamento clínico de qualidade e eficiência para os doentes e seus familiares, com ênfase na criação de vínculos de confiança, apoio emocional e em orientações sobre a patologia e suas consequências para o organismo.
“Tanto a anorexia quanto a bulimia são ocasionadas por uma desorganização na maneira como os indivíduos acometidos por esses transtornos alimentares constroem a sua realidade, ou seja, na maneira como enxergam seu próprio corpo e a sua imagem corporal.
O vínculo do dentista com o bulímico tem por objetivo maximizar as interações positivas do outro com o ambiente, promover nível satisfatório de bem-estar e intensificar o grau de autonomia dos doentes”, explana.

Odontohebiatria: um atendimento especializado
O atendimento odontológico específico e adequado aos jovens requer mais do que o conhecimento técnico-científico, pois se trata de um público que passa por grandes modificações biológicas, psicológicas e sociais.
A cirurgiã-dentista, Dra. Lúcia Coutinho, aponta que as várias fases do desenvolvimento orgânico, fisiológico e emocional do adolescente nem sempre acompanham a idade cronológica, portanto, a abordagem deve levar em conta o seu estágio de desenvolvimento. “É sempre garantido ao adolescente o sigilo sobre os assuntos que forem abordados com qualquer profissional da equipe. Não é recomendável que os pais ou responsáveis sejam ouvidos sem a presença do paciente, e toda a discussão sobre ele deve ser feita em sua presença. O diagnóstico dos distúrbios alimentares deve ser feito por um psiquiatra, e o paciente deve ser encaminhado a este profissional, caso haja suspeita em relação a esse diagnóstico. A discussão a respeito desse encaminhamento deve ser feita com o adolescente, na presença dos responsáveis”, esclarece.
Além de diagnosticar e controlar os efeitos bucais dos transtornos alimentares, o dentista deve também atuar na manutenção da saúde geral do paciente, incluindo a mental, considerando-se que tais distúrbios estão associados a uma taxa alta de suicídio. “O profissional de saúde bucal, como todo profissional de saúde, necessita tratar o paciente de forma integral, e isso implica em estar atento aos sinais de distúrbios de ordem geral e mental. A taxa de mortalidade nos transtornos alimentares, mais especificamente na anorexia nervosa, está entre as mais altas nos transtornos mentais, de 15 a 20%. Portanto, o encaminhamento de pacientes com suspeita de transtornos alimentares aos profissionais habilitados pode ser fundamental para salvar a vida do paciente”, defende a especialista em Odontopediatria, Dra. Lúcia Coutinho.
Embora os distúrbios alimentares pareçam estar focados na imagem corporal, alimentos e peso, eles estão, frequentemente, relacionados a muitas outras questões. A Dra. Liliana Takaoka explica que os transtornos alimentares devem ser tratados por psiquiatras, e que o dentista pode ser o profissional que primeiramente detecta o problema, tanto pelas erosões dentárias, como inflamação frequente da mucosa da orofaringe. “Todas as informações a serem trocadas sobre o paciente, entre os profissionais, deve ser com o consentimento do paciente e seu responsável legal. Estes transtornos estão relacionados, muitas vezes, à depressão, baixa autoestima, personalidades obsessivo compulsivas, portanto, são de difícil tratamento”.
É preciso lembrar que as lesões devem ser tratadas para que deem alívio aos sintomas, diminuindo a hipersensibilidade, controlando a evolução das lesões. No entanto, o tratamento restaurador definitivo deve ser realizado quando o processo purgativo pelo vômito estiver controlado, no caso da bulimia. “Isso deve ser explicado ao paciente e aos responsáveis. Com o consentimento do paciente e dos responsáveis, a informação sobre o controle da doença pode ser trocada entre os profissionais, já que é um dado importante para que o tratamento seja bem-sucedido”, finaliza a também especialista em Odontohebiatria, Dra. Lúcia Coutinho

Fonte: Odonto Magazine. Acesso 02/09/2015. Disponível em: goo.gl/c1kNJg