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A odontologia na saúde coletiva

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A odontologia na saúde coletiva

Mesmo com a conscientização de grande parte da população brasileira, ainda há dúvidas sobre o que é ou não adequado quando o assunto é a saúde bucal. Alguns cuidados simples, como a escolha da escova dental correta e a melhor forma de se higienizar os dentes, são dúvidas constantes. Durante muito tempo, a Odontologia foi entendida como a especialidade dedicada exclusivamente aos dentes, não ocupando seu devido papel no cenário da saúde. Todavia, um olhar ampliado vem se estabelecendo e promovendo, também estudos e práticas que credibilizam, sustentam e incentivam a estreita relação do sorriso e a saúde em geral.

Pensando na união entre teoria e prática, as cirurgiãs-dentistas, Josiane Aparecida Ferreira da Costa Montans e Marlívia Gonçalves de Carvalho Watanabe, reuniram-se para conversar sobre os avanços da profissão e as mudanças na carreira acadêmica nos últimos anos. Inspiradas por familiares também dentistas, ambas não tiveram dúvidas ao escolher a Odontologia como profissão. Josiane possui especialização em Gestão Pública de Saúde e Saúde Pública e, atualmente, atua como coordenadora do Programa de Procedimentos Coletivos e Preventivos em Odontologia da Secretaria Municipal da Saúde em Ribeirão Preto. Marlívia também se especializou em Saúde Pública e optou por seguir os passos do tio, atuando como professora associada da Universidade de São Paulo, agregando experiência em ensino, interação ensino/serviço e políticas de saúde.

Ao pontuarem as experiências que viveram na carreira, as especialistas salientam a importância da formação de um profissional completo, responsável pela saúde e dedicado a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Confira, na entrevista a seguir, uma análise sobre o desenvolvimento da odontologia.

Josiane: Incialmente, o que despertou seu interesse pela odontologia? Como foi a oportunidade e a decisão de permanecer na Universidade de São Paulo?
Marlívia: Não me lembro de ter feito essa escolha em um momento específico. A Odontologia surgiu naturalmente na minha vida. Tive um tio dentista que também foi professor e diretor da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto. Lembro de frequentar o consultório dele ainda criança. Depois, na adolescência, quando ele já atuava como professor na Faculdade, minhas primas e eu o visitamos algumas vezes e eu ficava encantada com aquele ambiente. Acredito que sua atuação profissional foi importante para a minha escolha. Acabei por me aprimorar, o que culminou na carreira de docente, a convite dele. Formei-me, em 1986, em Odontologia, fiz residência odontológica e fui aluna da primeira turma de Saúde Coletiva. Mais tarde, fui me especializar e logo comecei a lecionar na disciplina de estágio supervisionado.

Josiane: Também venho de uma família envolvida com a Odontologia. Com a proximidade da formatura, muitas opções se apresentam diante do novo profissional. Como foi com você?
Marlívia: Na verdade, não me via muito fechada dentro das quatro paredes de um consultório odontológico, mesmo gostando muito da parte clínica e dos trabalhos específicos da odontologia. Sempre tive facilidade em lidar com as pessoas e acreditava que desenvolveria melhor meu trabalho se atuasse em equipe. Por isso, quando fui convidada para atuar na disciplina de estágio supervisionado me senti realizada. Nessa época, eu estava concluindo a especialização em Saúde Pública, na USP, em São Paulo. Meus trabalhos estavam voltados à saúde coletiva. O convite possibilitou concretizar a minha vontade de atuar associando os atendimentos individuais a ações de caráter coletivo. Penso que uma conjuntura de caminhos que foram se apresentando acabaram me levando à docência. Para mim, naquela época, estar na faculdade significava dar aulas. A perspectiva que me apresentaram de ser professora serviu de motivação para seguir carreira na Universidade de São Paulo. Acredito que o caminho que escolhemos — tanto eu, na docência, quanto você, com o serviço na saúde pública — se relacionam quando nós optamos por não restringir a vida profissional. Sempre tivemos vontade de fazer algo a mais, atuar além do exercício específico da profissão, algo que pudesse ter um impacto mais abrangente, que fosse além dos nossos pacientes. É aí que começa uma parceria que, quando bem compreendida, planejada e executada, pode auxiliar sobremaneira a população: a parceria ensino/serviço.

Josiane: Nesses quase 29 anos de profissão, como você enxerga a evolução da Odontologia na academia?
Marlívia: A Odontologia mudou muito da época em que nos formamos até os dias atuais. Houve um desenvolvimento tecnológico muito grande, que nos oferece, hoje, aparelhos inovadores, tecnologias de ponta, materiais revolucionários, instrumentos variados e que facilitam muito o trabalho técnico da profissão. Existe, também, um desenvolvimento científico importante. Acredito que, tanto o desenvolvimento tecnológico quanto o científico, foram de grande valia para a profissão. Hoje, a academia começa a reconhecer a importância do desenvolvimento social da Odontologia. Recuperar a posição social que a profissão já teve também é um desafio do presente, que me parece muito possível com as novas diretrizes curriculares na formação de nossos futuros colegas.

Josiane: É notório o avanço tecnológico na área odontológica, entretanto, esses recursos não estão disponíveis para toda a população, pelos custos elevados. Qual sua opinião sobre essa realidade?
Marlívia: Essa realidade está posta. O desenvolvimento tecnológico é importante, mas é preciso que a tecnologia seja bem utilizada. Vale lembrar que ela não substitui o conhecimento científico, a experiência prática e o trato clínico humanizado do profissional. A tecnologia não precisa ser utilizada de forma demasiada. Não podemos descartar que, para o cuidado em saúde bucal, assim como na Medicina, o aspecto clínico precisa ser respeitado e valorizado. Não é sempre que a tecnologia ajudará no diagnóstico e na condução do tratamento. Percebo que, às vezes, lançamos mão de um exame sofisticado e, consequentemente, mais caro, quando poderíamos ter resolvido o problema de forma mais simples. Volto a dizer: a tecnologia é fundamental, mas deve ser bem utilizada, de forma justificável.

Josiane: Sempre me interesso por suas colocações atualizadas e renovadas sobre o binômio academia/serviço. Sendo você uma profissional voltada à saúde pública, qual a sua opinião sobre essa parceria?
Marlívia: Hoje, não há nada que justifique termos uma formação profissional em saúde —digo isso não apenas para a Odontologia, mas para a saúde em geral e todas as suas interfaces — que esteja distante da realidade social e dos serviços de saúde do Brasil. É necessário que as profissões cresçam e se desenvolvam alinhadas ao desenvolvimento do país e as políticas públicas. Existe um movimento que a própria sociedade impôs para as profissões da saúde e, mais especificamente, para a odontologia, que é a atuação no serviço público. O Sistema Único de Saúde (SUS) é o maior empregador para a Odontologia no país. Devido às dificuldades impostas ao setor, nas últimas duas décadas, em relação ao mercado de trabalho, principalmente nas regiões mais desenvolvidas, os cirurgiões-dentistas foram procurar emprego e buscar alguma estabilidade diante da concorrência do mercado de trabalho privado. Alguns dados demonstram que cerca de 1/3 dos dentistas brasileiros têm algum vínculo com o SUS, mesmo que em turno parcial. Sendo assim, não existe a possibilidade da academia ficar fora disso na hora da formação. Só podemos nos aproximar da realidade social do país se a evolução acontecer tanto na academia quanto nos serviços, pois ambos lutam para promover a saúde das pessoas. Quando formamos profissionais para a Odontologia, temos também como objetivo final a saúde integral das pessoas.

Josiane: O currículo atual das universidades brasileiras encontra-se alinhado às políticas de saúde pública?
Marlívia: Tivemos movimentos recentes no Ministério da Educação e no Ministério da Saúde que favorecem a aproximação academia/serviço. Em 2002, o Ministério da Educação publicou as novas diretrizes curriculares nacionais, as quais avançam quando sinalizam que os cursos de Odontologia devem formar profissionais capazes de “exercer sua profissão de forma articulada ao contexto social, entendendo-a como uma forma de participação e contribuição social”. Mais recentemente, esses ministérios implementaram políticas de incentivo ao desenvolvimento de atividades conjuntas de ensino entre academia e serviços de saúde. Algumas universidades já fizeram mudanças nessa direção nos projetos político-pedagógicos. Outras caminham mais lentamente. Essa mudança levará ainda algum tempo. Todavia, as novas diretrizes carregam bases mais atualizadas e a esperança de que os problemas de saúde bucal sejam mais eficientes e efetivamente enfrentados e solucionados.

Josiane: Acredita que o novo cirurgião-dentista estará mais preparado para desenvolver trabalhos voltados à coletividade?
Marlívia: O cirurgião-dentista da nossa época, e até bem recentemente, foi formado para trabalhar dentro do consultório odontológico. Esse olhar ampliado, que engloba e assume as ações coletivas como ferramentas modificadoras de perfil epidemiológico, que aglutinam educação, prevenção e promoção da saúde, sem renegar o importante papel curativo da Odontologia, apesar de não ser novo, na prática, é mais recente. Quando falamos sobre a formação e a atuação do profissional na Odontologia, assim como em outras áreas da saúde, não podemos deixar de ressaltar a importância do desenvolvimento do ponto de vista técnico e científico. Entretanto, especificamente sobre as doenças que, comumente, acometem mais a cavidade bucal, identificou-se que todo avanço tecnológico e científico sozinhos não são capazes de mudar a realidade de um país onde a cárie ainda é muito prevalente. Hoje, buscamos o conhecimento com maior enfoque social, voltado às questões do cuidado integral do paciente. Eu dou aula no primeiro ano da graduação, em uma disciplina intitulada Introdução em Odontologia. Sempre falo para os alunos que estão iniciando na carreira: “quem não gosta de cuidar, orientar e interagir com pessoas deveria procurar outra profissão; como profissionais da saúde, terão que lidar com pessoas, diariamente, com muita dedicação, cuidado e atenção”. A educação atual busca desenvolver esse olhar humano nos profissionais que ajudamos a formar. Exatamente esse atendimento mais individualizado e humanizado será o diferencial dos profissionais em um mercado tão competitivo e tão restrito. Acredito que quando conseguirmos resgatar esse papel na Odontologia, justificamos a nossa importância diante da população e da sociedade.

Josiane: Conversamos frequentemente sobre a Odontologia como “peça” fundamental no âmbito da saúde e da sociedade. Gostaria que você desse sua visão sobre a participação do cirurgião-dentista como agente da saúde.
Marlívia: Existe uma frase, amplamente divulgada pelo Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), que diz: “A saúde começa pela boca”. Essa colocação é muito verdadeira, porque não existe, por exemplo, uma alimentação saudável sem uma dentição saudável e vice-versa, assim como não existe uma boa saúde geral sem uma alimentação equilibrada. Isso demonstra, de maneira bem simplista, que todos os aspectos que envolvem a saúde são impossíveis de serem dissociados. Essa frase coloca o cirurgião-dentista no centro da roda da saúde, como um ator especial em relação aos demais. Acredito também que o movimento de sair do espaço isolado dos consultórios odontológicos resultará em uma importante recolocação social para a profissão. Volto a salientar o restrito acesso ao tratamento odontológico no Brasil. Vivemos em um país de desigualdades, e essa é uma das áreas ainda seriamente afetadas. Ao analisarmos os dados do Levantamento Epidemiológico realizado em 2013, ao compararmos Ribeirão Preto com a região sudeste e com a cidade de São Paulo, percebemos que nosso município apresentou índices que sugerem maior acesso ao tratamento odontológico. Houve melhoras significativas, mas ainda há muito a se fazer em todo o país.

Josiane: Depois de tantos anos dedicados à saúde coletiva, aos componentes socioculturais de nossa população e também ao meio acadêmico, como você enxerga o futuro da odontologia?
Marlívia: Apesar dos grandes avanços alcançados do ponto de vista científico e tecnológico, ainda temos que ampliar o papel social da profissão. Porém, não conseguiremos sozinhos. É preciso que a academia continue investindo na valorização dos aspectos humanistas da formação, para que tenhamos, além de ótimos cirurgiões-dentistas, excelentes profissionais de saúde, capazes de desempenhar o cuidado em todas as áreas do mercado de trabalho, de forma a enfrentar e a buscar soluções para as demandas da sociedade. Que os serviços e as políticas públicas de saúde continuem buscando resgatar a dívida social frente às dificuldades de acesso à atenção em saúde bucal e, consequentemente, às demandas reprimidas da população. Finalmente, que a sociedade possa, cada vez mais, alcançar melhor qualidade de vida, tendo como parceiro esse profissional que pode colaborar muito para a manutenção e para a recuperação de sua saúde bucal.

Cultivando sorrisos

“A oportunidade de entrevistar a professora Marlívia é motivo de grande alegria e satisfação. Embora nossas vidas tenham se cruzado nos corredores e nos anfiteatros da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP-USP), não tínhamos os mesmos amigos e pouco convivíamos. O trabalho que venho desenvolvendo nos últimos anos possibilitou nossa aproximação, estreitou laços e revelou uma gostosa sintonia profissional e pessoal. Agradeço por esse momento privilegiado, no qual me abasteço do conhecimento e de pareceres de uma mulher e profissional extremamente ética, dedicada, humilde e disponível. Tenho a professora Marlívia, a quem muito admiro e respeito, em meu coração como amiga querida e, orgulhosamente, como honrada representante da classe odontológica neste mês em que celebramos nossa profissão.”

fonte: Revide, escrita por Pâmela Silva
imagem retirada de http://www.odontomagazine.com.br/2012-02-odontologia-e-saude-coletiva-em-ribeirao-preto-sp-10265