Psicologia e Odontologia: uma parceria de sucesso

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Aproximar a Psicologia da Odontologia ou vice-versa é uma ação relativamente recente no Brasil. Segundo Liliana Seger, doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, a Psicologia aplicada à Odontologia nasceu de uma necessidade de entender e investigar como as doenças bucais e os comportamentos (dos pacientes e do profissional) observados no contexto odontológico se relacionam e como poderiam se beneficiar com os conhecimentos científicos da Psicologia. O fato é que, hoje em dia, seria salutar que o dentista aplicasse conhecimentos básicos de Psicologia em sua rotina diária. Certamente tal ação propiciaria um melhor e mais integrado relacionamento profissional-paciente, permitindo um diagnóstico global que envolve sintomas somáticos e psicológicos que necessitam ser correlacionados e avaliados.

Conhecendo um pouco da história desse processo é possível entender as expectativas dos odontólogos de que a Psicologia forneça soluções eficazes para os impasses surgidos no atendimento odontológico. Mas, para Liliana Seger, é necessário ampliar essa visão, definindo a Psicologia aplicada à Odontologia como uma atitude geral que postula uma visão integrada do homem, na sua unidade corpo-mente, o qual sofre influências do ambiente físico e do meio sociocultural em que está inserido. "Estes aspectos, que muitas vezes são incluídos em algumas anamneses, necessitam ser entendidos, analisados e correlacionados com as patologias em questão. Eles ampliam a visualização do paciente com o seu meio e permitem um diagnóstico mais integrado, correlacionando as variáveis com seu estado atual", explicou.

A Psicologia pode ser aplicada a todas as especialidades odontológicas que abrangem desde o clínico geral até os especialistas em suas respectivas áreas de atuação e, também, ao próprio CD, tanto no que diz respeito as suas tensões profissionais, à rotina de seu trabalho, à sua personalidade e ao seu comportamento perante os pacientes. O êxito no atendimento, na maioria das vezes, não diz respeito à técnica do profissional, embora seja fundamental, porém, "para o paciente não é somente a competência técnica que o faz abandonar ou permanecer em tratamento".

A Psicologia Aplicada à Odontologia pode e deve interagir nas seguintes áreas de atuação:

Ortodontia e Odontopediatria: trabalhar e entender os hábitos inadequados (sucção de polegar, onicofagia, medos, fobias, transtornos psíquicos na infância etc.).

Periodontia: cirurgias, doenças periodontais, como GUNA e sua relação com o stress e sua diferenciação com o distress.

Desordens temporomandibulares ou craniofaciais: disfunção da ATM e o perfil psicológico desses pacientes, bruxismo, etc...

Reabilitação do paciente portador de fissura palatina: como o paciente passará por inúmeras cirurgias é preciso trabalhar o pré e pós-cirúrgico, formas de como lidar com a família, etc...

Pacientes especiais: malformações congênitas, alterações comportamentais, alterações físicas adquiridas. Para pacientes que são portadores de uma lesão principal com sequelas diferentes é preciso avaliar o potencial residual para poder estabelecer um plano de tratamento específico individualizado na forma de atuar, ou seja, cada paciente irá requerer do cirurgião-dentista uma forma de atendimento adaptada ao seu histórico, bem como à sua capacidade de colaboração, intelecção e disponibilidade para os procedimentos odontológicos.

Psico-oncologia: aspectos psicossociais do paciente com câncer, a criança como paciente oncológico no consultório odontológico, a comunicação do diagnóstico de câncer bucal.
Prótese.

Pacientes geriátricos.

Implantodontia, entre outros.

Dor: um enfoque multidisciplinar - manejo e entendimento dos diversos aspectos.

O homem é um ser biopsicossocial, sendo impossível separar estes aspectos durante o tratamento. Os fatores emocionais podem desencadear, agravar ou perpetuar problemas físicos e estes, por sua vez, desencadeiam ou agravam os fatores emocionais. Portanto, "o cirurgião-dentista necessita saber se os fatores psicológicos estão modificando a 'doença' e influindo no paciente e, caso estejam, de que forma e em que extensão", orientou Liliana Seger.

As reações de stress são adaptadas pelo nosso organismo. No entanto, um paciente que está vivendo um stress crônico (distress) não consegue se restabelecer, pois ele fica o tempo todo numa fase de alerta. "Certas situações, por sua cronicidade, acarretarão sintomas físicos e psicológicos, provocando sérios danos à saúde, inclusive agravando ou iniciando uma GUNA, um bruxismo, dores musculares, cefaleias, crises de ansiedade, depressão, alterações cardíacas, dermatites, úlceras gástricas, entre outros", alertou a psicóloga.

Segundo Liliana Seger, o paciente com transtornos comuns de distress necessitará de um tratamento com um psicólogo, uma psicoterapia breve e focal, onde aprenderá a lidar com essas situações, a fim de minimizar os danos a sua saúde física e mental.

O tratamento é breve - 15 a 20 sessões. O foco está apenas na queixa relacionada aos problemas físicos, depois, caso o paciente tenha necessidade de lidar com mais algumas questões, ele poderá prolongar sua psicoterapia com o psicólogo especializado ou com outro profissional.

Profissionalismo

O cirurgião dentista deve ter claro quando e como encaminhar o caso, pois quanto maior for sua convicção da necessidade do tratamento complementar, mais lógica e convincente será sua explicação ao paciente. Um cirurgião dentista com dúvidas transmite as ao paciente e acaba influenciando sua atitude e decisão. O receio de ser mal interpretado pelo paciente faz com que, na maioria das vezes, o dentista não encaminhe esse paciente.

Mas também o psicólogo deve estar preparado para atuar nessa área. Ele deverá ter noções básicas de Odontologia para compreender, avaliar e tratar as queixas do paciente. As noções compreendem anatomia, fisiologia do aparelho mastigatório e conhecimento das doenças que têm um comprometimento emocional; sua etiologia, manifestação clínica e evolução.

Um pouco de história...

A Faculdade de Odontologia de Piracicaba, em 1965, foi a primeira a incluir a disciplina de Psicologia em seu curso de graduação (Gil, 1988), quando a faculdade de odontologia ainda funcionava como um instituto isolado de ensino superior.

O curso, inicialmente ministrado por uma Odontopediatra, procurava derivar formas específicas de manejo do comportamento de cada tipo de paciente a partir de um conjunto de regras que especificavam a atuação ideal do profissional.

Em 1982, através da Resolução nº 04 do Conselho Federal de Educação (Moraes, 1985), a área de Psicologia foi oficialmente incluída no currículo mínimo de Odontologia. "Segundo o mesmo autor, isto, porém, não garantiu um preparo adequado dos alunos para a compreensão mais global do paciente, já que continuaram frequentes as resistências, explícitas ou implícitas, às tentativas de preparação psicológica do aluno para o atendimento clínico", informou Liliana Seger, autora do livro Psicologia & Odontologia: uma abordagem integradora, Editora Santos, 2009.

Exemplos do trabalho conjunto

Em um paciente com GUNA, o psicólogo deverá saber que esta afecção é agravada quando o paciente se encontra sob situação de distress. O odontólogo deverá saber se nesse paciente o distress está agravando a afecção.

Em um paciente com disfunção da ATM, o psicólogo deverá saber o que é ATM, disfunção da ATM, sua etiologia, sinais e sintomas, músculos que atuam nessa região e entender o perfil psicológico desses pacientes.

Já em um paciente com queixa de sucção do polegar, o psicólogo deve saber que este hábito interfere nos maxilares e na posição dos dentes, podendo causar problemas de oclusão, etc..

Em todas as especialidades da Odontologia é necessário avaliar as características do paciente, analisar a presença do stress e distress, entender de que forma o paciente lida com suas emoções.

Mas, o dentista não deve ser um "psicólogo". E o Psicólogo que trabalha com Psicologia aplicada a Odontologia não necessariamente deve ser um dentista. "Infelizmente, em muitas universidades, essa disciplina, hoje excluída da graduação, foi ministrada por profissionais leigos na matéria, o que levou muitos alunos e profissionais a minimizar a sua importância", comentou.

"Agora os profissionais terão que aprender estudando, lendo e fazendo cursos específicos". Quem lida diariamente com pessoas percebe, cada vez mais presentes, os transtornos psicológicos e psiquiátricos. O dentista conhecedor desses transtornos ficará habilitado a perceber com mais clareza sinais e sintomas e, sem receio de ser mal interpretado, encaminhará o paciente a um profissional de saúde mental. "O paciente que está vivendo um problema ou que tem certas características de personalidade as mostrará, sem dúvida alguma, no relacionamento com o seu dentista", afirmou Liliana.

Quais os possíveis significados por trás do paciente que sempre chega atrasado, que desmarca inúmeras vezes, que tem problemas com os pagamentos, que não para de falar?... "Tudo deve ser considerado e avaliado com cautela e, para isso, o estudo e o trabalho em equipe é fundamental", concluiu.

Fonte: Odonto Magazine. Disponível em: http://www.odontomagazine.com.br/2012-04-psicologia-e-odontologia-uma-parceria-de-sucesso-10051. Acesso em: 03/08/2016.