Odontologia Militar: um mercado promissor

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Um enorme avanço na saúde aconteceu no período da permanência da família real portuguesa em solo brasileiro, que se deu entre os anos de 1808 e 1820.

Durante século XIX, por sugestão de Frei Custódio de Campos e Oliveira, uma das mais importantes pessoas que vieram com a corte para o Brasil e, sem dúvida alguma, uma grande autoridade médica militar, foi criada a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica no Hospital Real Militar da Corte, hoje, o conhecido Hospital Central do Exército; e a Botica Real Militar, hoje, Laboratório Químico-Farmacêutico do Exército, junto ao Hospital Real Militar, ambos na cidade do Rio de Janeiro.

Segundo a História, concomitantemente, por sugestão do Dr. José Correa Picanço, cirurgião-mór do Reino, criou-se, em Salvador, a Escola de Cirurgia no Hospital Real Militar daquela cidade, atualmente, Hospital Geral de Salvador.

No mês de abril do ano de 1821, Frei Custódio retornou para Portugal. No ano seguinte, o Tenente-Coronel Manuel Antonio Henrique Totta foi nomeado pelo Imperador Dom Pedro I, cirurgião-mór do Exército, permanecendo no cargo até o ano de 1849.

Totta foi responsável pela implementação, em 1832, do Regulamento dos Hospitais Regimentais, transformando os hospitais militares em hospitais regimentais. Oito anos mais tarde, sob seu comando, foram realizados diversos atos médicos cirúrgicos e anestésicos, demonstrando o grau de conhecimento e técnica cirúrgica dos integrantes do Hospital Militar da Corte.

Em 19 de abril de 1849, foi criado o Plano de Organização do Corpo de Saúde do Exército, o qual, pela primeira vez, estabelecia a organização de toda a estrutura de saúde militar, tanto do Exército quanto da Marinha.

A regulamentação para o Serviço de Saúde no Exército deu-se a partir do decreto nº 32090, de 14 de janeiro de 1953, quando foi determinada a manutenção dos efetivos do Exército no mais alto grau de eficiência física e mental.

Hoje, após inúmeros desdobramentos históricos que envolveram a saúde do nosso povo, existe a Diretoria de Saúde do Exército, o órgão de apoio setorial, técnico-normativo e gerencial incumbido do planejamento, coordenação, controle, supervisão e avaliação das atividades relativas à saúde, no âmbito do Exército Brasileiro e julga ser o órgão que assegura, por meio do gerenciamento dos seus projetos e processos, a excelência da assistência à saúde na esfera das Forças Armadas.

Saúde bucal no Exército Brasileiro

O Serviço é representado pela Escola de Saúde do Exército, que foi criada pelo Decreto Nº 2232, de 06/01/1910, com a denominação de “Escola de Aplicação Médica Militar” e com a finalidade de ministrar conhecimentos básicos, indispensáveis à vida militar, inicialmente aos doutores em Medicina e, logo em seguida, estendido aos farmacêuticos, dentistas e veterinários, que ingressavam, mediante concurso, ao Corpo de Saúde do Exército. Estes andamentos eram voltados para a formação militar e para a legislação peculiar da atividade de saúde, complementados pelo treinamento físico e pela equitação.

De acordo com informações cedidas pelo Dr. Diego Michelini, cirurgião-dentista e 2° Tenente Dentista no 1° Batalhão de Guardas - Batalhão do Imperador (Rio de Janeiro), a Odontologia Militar teve o seu início marcado com a criação e a organização do Quadro de dentistas; a atuação relevante dos dentistas na fase de preparação da tropa para a Segunda Guerra Mundial e durante a guerra; a inserção da Odontologia como uma atividade especializada no contexto do Serviço de Saúde em Campanha; a atuação dos dentistas nas inspeções de saúde dos conscritos e dos aviadores; as formas de ingresso no Quadro de dentistas e a Odontoclínica Central do Exército, organização militar de saúde voltada exclusivamente para o atendimento odontológico.

“Verificou-se que os dentistas conquistaram uma merecida posição dentro do Serviço de Saúde do Exército, sendo reconhecida a sua relevância para a Instituição. Entretanto, apesar da sua importância, o Serviço de Odontologia é objeto de raras investigações históricas aprofundadas, sendo escassas as fontes de consulta sobre o tema”, explica Dr. Michelini. “Cabe aos dentistas militares alterarem esta situação, por meio da divulgação e registro das diversas atividades desenvolvidas pelo Serviço, o que contribuirá para a valorização da Odontologia no contexto das profissões de saúde do Exército Brasileiro”, completa.

Cabe lembrar que a Odontologia Civil e a Odontologia Militar, tanto na prática quanto na teoria, não possui distinção científica, visto que ambas atuam para prevenir, promover, devolver e manter a saúde bucal, favorecendo a saúde do corpo inteiro, de todo e qualquer cidadão, seja ele militar ou civil.

“A importância do cirurgião-dentista, seja na organização militar, como nos hospitais e Odontoclínicas, assim como os outros membros da equipe de saúde, dá-se devido à necessidade da promoção, prevenção e manutenção da saúde sistêmica da tropa e dos seus dependentes, oferecendo bem-estar e saúde digna a todos que lutam e defendem o nosso amado país”, esclarece o também especialista em Estomatologia.

Odontologia Militar na prática

O 2º Tenente Michelini elucida que a assistência dada pela Odontologia Militar é abrangente aos militares da ativa e da reserva, estendendo-se aos seus familiares dependentes. “O Exército do Brasil tem qualificação de pessoal e material suficiente para executar todas as áreas de atuação odontológica, seja nas Odontoclínicas, nos Hospitais e até mesmo nas unidades operacionais”.

A organização e o funcionamento do Serviço Odontológico são atribuídos de acordo com cada unidade. “Em quartéis operacionais, temos a seção de saúde, que conta com oficiais médicos, dentistas, farmacêuticos e veterinários, além de sargentos de saúde, apoiados por cabos e soldados. O foco, nesses casos, é suprir e atender os militares que servem na respectiva unidade, juntamente com seus dependentes. No caso do funcionamento dos Hospitais e Odontoclínicas, os mesmos recebem, dentro de suas proporções, os encaminhamentos dos casos mais graves, específicos e emergenciais, além de terem estrutura para receber militares de diversas organizações militares, além de militares da reserva e seus dependentes”, enfatiza o dentista.

Ao contrário do que muitos profissionais de saúde bucal pensam, os tratamentos odontológicos dispensados aos militares são os mesmos adotados com os civis. Não existe qualquer diferenciação de cuidados. O protocolo, segundo o cirurgião-dentista, consiste na orientação e promoção de saúde, prevenção das principais doenças bucais, ações curativas - em casos de doenças já instaladas – e manutenção da saúde oral após a alta do indivíduo.

Dentista e militar

O cirurgião-dentista que atua dentro de uma unidade militar não carrega mais apenas o título de profissional de saúde bucal, diferenciando-se com a vestimenta branca. Esse profissional passa a ser um oficial dentista e, de acordo com o 2° Tenente Michelini, as responsabilidades acarretadas por este novo ‘título’ vão além da técnica odontológica, a qual o mesmo deve empregar com êxito ao cuidar da saúde bucal de militares da ativa, militares da reserva e seus respectivos dependentes. “O cirurgião-dentista que é militar deve cumprir com suas missões de tal cunho, defendendo o seu país e promovendo saúde por onde quer que passe”, explica.

Em caso de uma possível guerra, por exemplo, o atendimento odontológico, assim como o da saúde em geral, é muito necessário para o desempenho dos oficiais. “O exemplo atual, visto que o Brasil vive tempos de paz, é a atuação na missão de paz no Haiti, que conta com oficiais dentistas na manutenção da ordem e promoção de saúde e prevenção de doenças na população carente em todos os sentidos, encontrados no referido país”, esclarece o especialista.

Vale sempre lembrar que o atendimento odontológico eficaz pode influenciar no desempenho físico dos soldados. Os cuidados ideais buscam evitar manifestações sistêmicas, como febre, infecções e inflamações de outras regiões do corpo devido aos focos infecciosos em algum órgão dentário. Por meio do controle periódico de saúde bucal, com manutenção e orientações pertinentes, é possível diagnosticar e evitar doenças que podem surgir na boca e levar consequências para todo o corpo, influenciando, diretamente, no desempenho dos militares em geral, por exemplo, nas missões e nas atividades físicas.

O aprimoramento do serviço odontológico militar pode possibilitar uma melhor qualidade de vida para a tropa, o que, consequentemente, será percebido na qualidade do serviço prestado à sociedade. “A Odontologia, conforme podemos observar nas grandes pesquisas atuais, é a responsável por grande parte da saúde sistêmica e a porta de entrada para importantes doenças que atingem o organismo. Visto isso, existe a necessidade de uma Odontologia de ponta nas Forças Armadas, a fim de que a tropa, que precisa estar bem fisicamente e mentalmente em todo momento, conte com a saúde bucal adequada, o que irá favorecer desde as atividades físicas executadas pelos militares até o desempenho dos mesmos nos serviços e missões diversas”, pontua o cirurgião-dentista.

Além das atividades internas, os dentistas participam de ações cívico militares, conhecidas como ACISO, que são atividades realizadas pelo exército Brasileiro para prover assistência e auxílio a comunidades, desenvolvendo o espírito cívico e militar dos cidadãos, no país ou no exterior, para resolver problemas imediatos e prementes.

Atualização em foco

A atualização constante se torna a arma mais preciosa para promover um atendimento eficaz e de qualidade, daí a importância da participação em encontros e/ou congressos que reúnam profissionais da Odontologia que trabalham em unidades militares. A troca de experiências e a atualização prática e científica fazem toda a diferença na carreira do cirurgião-dentista. “O profissional de Odontologia, seja militar ou civil, deve se manter sempre atualizado. No Brasil, existem inúmeros congressos, simpósios, jornadas e demais eventos científicos que colaboram para isso, além de estreitar os laços pessoais, profissionais e comercias entre os membros da classe. A Odontologia é representada, nacionalmente, pelo CFO (Conselho Federal de Odontologia) e, no estado do Rio de Janeiro, pelo CRO-RJ (Conselho Regional de Odontologia do Rio de Janeiro), os quais promovem cursos gratuitos, jornadas e congressos para toda a classe, como ASB (auxiliar de saúde bucal), CD (cirurgião-dentista), TPD (técnico de prótese dentária), dentre outros. Além dos conselhos, faculdades e cursos que oferecem a educação continuada, as Forças Armadas, por meio de suas seções de ensino, proporcionam cursos profissionalizantes, de especialização e atualização em todas as áreas, incluindo a odontológica. Com isso, surgiu a ABOMI (Academia Brasileira de Odontologia Militar), que participa ativamente dos congressos civis e organiza congressos militares para o público em geral, o que possibilita a integração de militares de todas as Forças e facilita a troca de experiências científicas, além de favorecer à constante reciclagem devido ao oferecimento de cursos com os melhores palestrantes da Odontologia atual”, acrescenta Michelini.

Hoje, no âmbito odontológico, possuímos 19 especialidades que, somadas, atuam clinicamente, politicamente, didaticamente e na forma de pesquisa e experimentos. Segundo Michelini, na carreira militar, os oficiais dentistas possuem incentivos e liberação para se aprimorarem, visto a intenção e necessidade das Forças em ter seus militares cada vez mais aptos a cuidar da maneira mais moderna de sua tropa e dependentes.

Uma carreira em destaque

A Odontologia Militar cresce aceleradamente no cenário profissional. Isso acontece de maneira prática e científica, tornando-se referência em atendimento clínico de todas as especialidades, em pesquisa, cursos de formação e capacitação, com seus oficiais dentistas cada vez mais preparados e, normalmente, com mestrado e doutorado.

“Todas as Forças Armadas, como o Exército, Marinha, Aeronáutica, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar possuem amplo quadro de dentistas em seus efetivos, cobrindo todas as Organizações Militares, o que comprova a valorização da saúde no regime militar. Além disso, o mercado de trabalho na área militar reconhece o bom profissional, dando todas as condições necessárias de trabalho ao mesmo”, elucida o 2º Tenente Dentista.

A contratação de cirurgiões-dentistas para atuarem nas forças é feita de duas maneiras: como oficial dentista temporário ou oficial dentista de carreira. No primeiro caso, o profissional participa de uma ampla seleção e, caso aprovado, ingressa na força como aspirante dentista, permanecendo até oito anos na força, sendo promovido a 2º Tenente Dentista e depois a 1º Tenente Dentista. No caso do oficial de carreira, o ingresso também é realizado como aspirante, por meio de concurso público nacional. O profissional serve na Força durante 30 anos, podendo chegar ao posto de Coronel Dentista, no caso do Exército.

Após ser aprovado na seleção, o dentista precisa passar por uma fase de formação militar e, assim como qualquer profissional da saúde, também passa pela fase de formação e adaptação ao serviço militar. “No caso de oficial temporário, o mesmo faz um estágio de adaptação em serviço, por exemplo, aqui no Rio de Janeiro, no CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva), e assim por diante. O curso forma e prepara o então aspirante para a vida militar no geral, onde servirá ao seu país nas funções específicas de sua área e nas funções gerais de um militar. No caso de militares de carreira, após aprovados em todas as fases do concurso, ingressam na Escola de Saúde do Exército (EsSEx), para o curso de formação”, destaca Michellini.

A EsSEx é um Estabelecimento de Ensino de formação de grau superior, da Linha de Ensino Militar de Saúde, diretamente subordinado à Diretoria de Educação Superior Militar (DESMil) e tem como missão formar oficiais do quadro de médicos, farmacêuticos e dentistas do serviço de saúde para o serviço ativo do Exército; coordenar os cursos de Pós-Graduação dos Oficiais do Serviço de Saúde, QCO de Enfermagem, veterinário, Psicologia da saúde, Subtenentes e Sargentos de Saúde (PROCAP-Sau); contribuir para o desenvolvimento da doutrina militar na área de sua competência; realizar pesquisas na área de sua competência, inclusive, se necessário, com a participação de instituições congêneres; ministrar estágios sobre assuntos peculiares a EsSEx; e realizar concursos para ingresso na Linha de Ensino Militar de Saúde.

Michelini enfatiza que o serviço odontológico nas forças comtempla o atendimento da tropa e de seus familiares. Além disso, as Organizações Militares possuem suas respectivas seções de saúde, onde o oficial dentista possui participação fundamental na parte clínica e operacional. Os militares da respectiva unidade recebem atenção, acompanhamento e manutenção da saúde, por meio de inspeção de saúde, tratamentos e encaminhamentos para estruturas de maior porte e especialidade, quando necessários. “É preciso lembrar que o dentista, assim como qualquer profissional de saúde dentro das Forças Armadas, deve atuar, normalmente, como o militar, ou seja, participando dos projetos, das obrigações e funções militares, na proteção e defesa do país, tendo maior ênfase na prevenção, promoção e manutenção da saúde da tropa, o que favorece a mesma ter melhores condições de atuação, com condicionamento adequado e saúde bucal e sistêmica ideais.

O cirurgião-dentista e 2º Tenente, Diego Michelini, esclarece para o profissional de saúde bucal que deseja ingressar em território militar, que as vagas para o serviço militar, que pode ser temporário ou de carreira, ocorrem uma ou mais de uma vez ao ano, comprovando o alto valor dado pelas Forças Armadas ao cirurgião-dentista com o seu devido reconhecimento, o que torna o profissional da Odontologia um militar que luta pela saúde da tropa, dos seus dependentes, e de todo o país. “É missão do oficial de saúde das Forças Armadas lutar por um Brasil saudável sistemicamente. O candidato interessado deve buscar informações para inscrição nos sites da sua respectiva região militar”, finaliza.

Fonte: Odonto Magazine. Disponível em: http://www.odontomagazine.com.br/2014-10-odontologia-militar-um-mercado-promissor-14935. Acesso em: 28/07/2016.