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Odontogeriatria: um mercado promissor

25/01/2012

Dados estatísticos comprovam a tendência ao crescimento da população idosa no mundo. No Brasil, o Censo de 2010 aponta o “envelhecimento da sociedade”. Mas não é por acaso que esse evento está acontecendo. Para Dr. Augusto Roque Neto*, especialista em Dentística Restauradora e mestre em Clínicas Odontológicas pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo – FOUSP, as melhores condições de vida, de higiene e de saúde propiciam esta realidade, que exigiu uma movimentação específica de todas as profissões para conseguir atender adequadamente a nova demanda.

Na Odontologia, a Odontogeriatria é uma disciplina nova, que vigora desde 2002. “Basicamente, há tudo para se realizar”, afirmou Dr. Augusto. Por isso, estudos e troca de informação sobre as experiências vividas é de fundamental importância no desenvolvimento da especialidade.

O profissional deve ter em mente que a Odontogeriatria é uma disciplina multidisciplinar. Isso exige que as matérias básicas sejam revistas e muito bem compreendidas. Não se deve se preocupar apenas com aquelas que contemplam a parte técnica. Contatos com outras profissões, como Medicina, Terapias Ocupacionais, Enfermagem devem ser estimulados. A criação de grupos de estudo também é importante para que uma profissão entenda e emule os resultados obtidos em parceria. Já os cirurgiões-dentistas formados devem procurar cursos, palestras e especializações para se orientar e se adequar.

Com a expectativa de um aumento de idade dos pacientes, o que anteriormente se limitava a tratamentos de reposição de elementos perdidos com próteses passou também a ter um caráter mais multidisciplinar. “Muitos pacientes possuem dentes e, de maneira geral, pretendem mantê-los, então atualmente praticamente todas as formas de tratamento e especialidades são procuradas”, explicou Dr. Augusto.

Não é incomum ver um paciente com mais de 70 anos utilizando um aparelho ortodôntico ou lançar mão de implantes para recolocar os elementos perdidos. Clareamento também tem uma procura grande, principalmente em época de fim de ano, em razão das festas de formatura, casamentos de familiares e, principalmente, por causa do verão. “Restaurações estéticas ou a troca de restaurações metálicas por resinas é um item bem corriqueiro em nossos consultórios”, informou. O fato é que estas atitudes dão uma aparência mais saudável ao idoso.

De acordo com sua experiência, Dr. Augusto alertou que o paciente idoso tem uma noção bastante grande do que ele deseja. Ele citou um trabalho conclusão de curso deste ano, conduzido pela aluna Vanessa Aran, na Universidade Metodista de São Paulo, no qual a maior queixa do paciente foi do cirurgião-dentista querer impor o tipo de tratamento, o que muitas vezes não correspondia às ansiedades do idoso.

De encontro a essa situação, os cursos de especialização em Odontogeriatria estimulam o profissional não só a entender e melhorar o atendimento ao idoso como introduz a necessidade de se envolver e treinar o contato multiprofissional, exercendo e descobrindo novas linguagens de atendimento ao paciente, o que leva a um melhor resultado final.

“O paciente geriatra geralmente lança mão de uma polifarmácia, utilizando-se de um número de fármacos no seu dia a dia, com possíveis repercussões bucais, então o contato com o médico geriatra ajuda o profissional a encontrar uma forma mais adequada de enfrentar esses desafios”, afirmou. “Um ansiolítico, por exemplo, pode diminuir a quantidade de saliva do paciente. O cirurgião-dentista deve estar atento aos detalhes como este e discutir com o outro profissional qual a conduta a ser tomada naquele caso específico”.

Muitas vezes, na indicação de um fármaco ao paciente se esquece de que existe uma diminuição da eliminação deste, deixando o paciente um nível plasmático maior que o esperado. Então, um bom relacionamento com o médico e o conhecimento a fundo da medicação ingerida pelo cliente e seu modo de ação e eliminação é essencial para um bom atendimento.

“Um bom relacionamento com o médico geriatra, é sempre reforçado e estimulado em todos os cursos de extensão e especialização”, enfatiza o professor adjunto das disciplinas de Oclusão e Anatomia Dentária; Odontologia Restauradora I e II da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, Dr. Augusto Roque Neto.

O atendimento
Em geral o paciente idoso é mais ansioso, carente e essas informações devem ser levadas em conta na hora do atendimento. As consultas clínicas devem ser mais curtas, pois o idoso pode em geral apresentar limitações físicas. No entanto, o profissional deve aumentar um pouco mais o tempo entre consultas pela necessidade que o paciente tem de se expressar. Porém, é preciso evitar o envolvimento emocional, situação muito fácil e comum de acontecer, causada pela frágil relação entre paciente idoso e profissional, principalmente no caso de profissionais mulheres.

Levando em consideração a carência, as limitações físicas e a falta de paciência a longas consultas e\ou tratamentos clínicos, a abordagem psicológica deve ser considerada. Primeiro o paciente idoso deve se sentir confortável e ter conhecimento de todos os passos que serão realizados e a expectativa em relação aos resultados. O paciente é o foco e ele deve se sentir dessa forma dentro da clínica, para conseguir expressar seus anseios frente ao tratamento. “Devemos sempre ter em mente que este paciente, geralmente, passou por um tratamento mutilador, onde as extrações eram indicações muito comuns. Sua ansiedade deve ser controlada por meio de explicações, mostrando-se casos parecidos. Os anseios do profissional neste contexto devem ser controlados”, orientou Dr. Augusto Roque Neto.

O atendimento deve ser o mais individualizado possível, tentando sentir as necessidades do idoso em relação ao tratamento. De preferência (quando possível), deve-se proporcionar o tratamento menos invasivo, tentando realizar o procedimento proposto de maneira rápida e confortável para o paciente.

O espaço físico do consultório do profissional que pretende fazer atendimentos em Odontogeriatria deve ser muito bem estudado. Tem de se evitar ou minimizar todos os obstáculos para uma pessoa idosa:

    Portas: se possível, com uma abertura com mais de 0,80 centímetros, que é o padrão. Pacientes cadeirantes precisam de uma passagem de, no mínimo, um metro. A cadeira geralmente tem 0,90 centímetros.
    Obstáculos físicos: mesas, cadeiras, tapetes, vasos em salas de espera e de atendimento, corredores estreitos, devem ser repensados. De preferência, os tapetes na sala de espera não devem existir. Na sala de atendimento os espaços devem ser amplos e de fácil localização.
    Degraus: devem ser substituídos por rampas e se possível de uma inclinação suave.
    Iluminação: não deve ser muito fraca. O idoso tem uma percepção diferente de claridade.
    Som ambiente: se houver, deve ser tranquilo e com baixo volume.
    Sanitários: além de bem sinalizados, devem oferecer barras de apoio, assim como os aparelhos, vasos sanitários, pias e torneiras, devem ser adequados ao novo tipo de atendimento.
    Leitura: deve haver sempre revistas, livros com letras maiores que as convencionais ou revistas que possuam preferencialmente figuras.

Dentro da sala do cirurgião-dentista é preciso ter outros cuidados:
- Evitar equipamentos com mangueiras expostas.
- Cuidado com o refletor e com a luz direto nos olhos do paciente, que pode causar cegueira momentânea e provocar um acidente na hora do paciente descer da cadeira de atendimento.
- Evitar que o paciente cuspa diversas vezes.
- O inclinamento maior da cadeira deve ser também evitado, assim como o seu retorno à posição habitual deve ser mais lenta.
- Tente deixar o paciente mais tempo sentado na cadeira após o tratamento, pense que ele pode ter inúmeras patologias e este tempo serve para ele se recompor fisicamente.
- Sempre ofereça um apoio para ele sair da cadeira de atendimento.

Higiene bucal
É preciso levar em conta que o ser humano com o decorrer do tempo perde mobilidade, facilidade de realizar determinados movimentos e piora a sua condição psicomotora. Então, mudanças de hábitos são necessárias. Dr. Augusto orientou que a simplificação é o melhor caminho.

A adequação dos instrumentos utilizados como aumento da espessura do cabo da escova, para uma melhor pega e equipamentos auxiliares, como aparelhos tipo “Water Pik”, ajudam e facilitam a vida do paciente idoso. “Cuidados com os tipos de pasta. Prefira as menos agressivas, pois as que propõem a retirada de manchas e deixam os dentes mais claros podem ser prejudiciais à mucosa bucal do paciente idoso”.

Para os idosos que possuem cuidadores, os mesmos devem ser igualmente orientados para aprender a higienizar as próteses, tanto as totais e/ou removíveis quanto [e principalmente as fixas e implantes].

Crescimento da população idosa
Existem diversos estudos e projeções que indicam o crescimento da população idosa no Brasil, como o estudo de José Alberto Magno de Carvalho [2004], da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, que aborda a evolução mediante grupos de idade e projeção estimada.

Vemos que a população idosa, maior de 65 anos, cresceu de 2,1% na década de 1990/2000, para 2,6% na década seguinte e tem projeção de 3,8% de aumento na população entre 2010 e 2020, enquanto a taxa de nascimento passou de 0,8% para crescimento negativo de 0,6 e 0,3 respectivamente.

Portanto, deixamos de ser um país jovem para nos tornar um país de idosos. Até 2050 teremos a mesma população de idosos da França, porém, esta teve quase 100 anos para chegar a esta condição enquanto o Brasil vai atingir estes números em 50 anos, trazendo todo tipo de complicação para atendimento desta demanda, tanto na parte de saúde como previdenciária.

Dr. Augusto Roque Neto concluiu que “quem se aplicar nesta nova especialidade [Odontogeriatria] terá um futuro com muita procura por parte de ‘novos’ pacientes”.


Fonte: Odontomagazine

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